Em março de 2020, Laura entrou no Espaço Maya e avisou:
— Vocês não sabem o que está acontecendo. Vai parar tudo. Vai ter que fechar tudo.
A pandemia ainda parecia uma coisa distante. Algumas pessoas riram. Acho que ninguém naquela sala conseguia imaginar que, dois ou três dias depois, tudo realmente estaria parado.
Eu também não conseguia. Quando aconteceu, achei que resolveríamos a situação em mais ou menos uma semana. Não tinha nenhuma noção da dimensão daquilo.
Passei a primeira semana um pouco paralisada, tentando entender o que poderia fazer. Na segunda-feira seguinte, propus aulas online para as alunas. Eu tinha um iPad pequeno e um quarto. Foi assim que comecei.
Quando a vida derruba uma conquista
Eu havia criado o espaço físico em abril de 2019. Abrir aquele lugar sozinha era uma conquista enorme para mim. Eu já trabalhava havia cerca de dez anos na área, tinha lutado muito para construir minha autonomia e, finalmente, vivia uma estabilidade profissional que nunca tinha experimentado.
Eu estava bem-sucedida. Aí a vida veio e me derrubou.
O Espaço Maya era justamente uma das razões pelas quais aquela queda doía tanto. Não era somente fechar uma sala e suspender uma agenda. Eu estava vendo uma conquista recém-alcançada desaparecer sem saber quando — ou se — seria possível retomá-la.
Em julho daquele ano, decidi encerrar o espaço físico e vender as coisas. Eu não queria voltar ao mesmo modelo. Tinha muito medo de contaminar alguém. Não queria que uma aula colocasse uma pessoa em risco, nem carregar a possibilidade de ter participado de uma cadeia que terminasse em uma perda.
A pergunta passou a ser: como continuar cuidando das pessoas sem colocá-las em perigo?
Um iPad pequeno e quinze mulheres
Algumas alunas aceitaram experimentar as aulas pelo iPad. Depois vieram outras. O que começou no quarto cresceu até chegar a turmas de 15 mulheres. Em alguns dias, eu dava quatro ou cinco aulas.
A tecnologia, porém, estava longe de ser natural para mim. A tela do iPad era pequena, comecei a sentir dificuldade para enxergar e passei para o computador. Depois, projetei as alunas na televisão. Meu marido, que trabalha com tecnologia, foi fundamental. Enquanto eu estava emocionalmente abalada, ele me explicava o que funcionava, como funcionava e qual poderia ser a próxima adaptação.
O problema não era apenas técnico. Eu sou uma pessoa relacional. Gosto de conversar, de saber da vida das pessoas, de conhecer o sujeito da esquina e a família de alguém. Gosto de sentir que tenho chão e raízes espalhadas.
Minha aula sempre dependeu dessa relação. Por isso, eu me perguntava como seria possível quebrar o gelo de uma ferramenta que eu mesma achava insuportável.
No começo, uma pessoa falava em cima da outra. Ninguém entendia direito o tempo da conversa online. A câmera também deixava entrar pedaços da vida que não apareceriam numa sala de aula. Uma vez, o namorado de uma aluna surgiu de roupão ao fundo. A turma inteira ficou em silêncio, olhando para a tela e esperando para ver o que eu diria. Ele saiu. Nós seguimos. Em outras aulas, familiares atravessavam o cômodo, alguém aparecia de roupa íntima e a casa insistia em lembrar que estava ali.
Era estranho, cansativo e, muitas vezes, muito engraçado.
A aula virou uma brecha no dia
Eu comecei a perceber o quanto as pessoas precisavam daquele momento. Todo mundo estava girando dentro de casa. Para muitas alunas, a aula era a brecha do dia em que conseguiam desopilar.
Mas não era apenas o exercício. A gente ria, conversava e fazia coreografias. Os grupos se fortaleceram. Algumas amizades nasceram ali e, quando foi possível voltar à rua, houve alunas que se reconheceram fora da tela pela experiência que haviam compartilhado.
Enquanto eu tentava sustentar aquele espaço para elas, elas também estavam me sustentando. Davam alegria aos meus dias. Devolviam um pouco da rua, da conversa e da sensação de pertencer a algum lugar.
Isso não significa que o movimento tenha resolvido tudo. Durante muito tempo eu nem conseguia fazer um treino meu. Eu dava as aulas e terminava exausta — mais cansada do que depois de uma aula presencial. Estava aprendendo a ferramenta, tentando produzir presença por uma tela e vivendo uma espécie de luto por tudo o que havia sido interrompido. Também tive perdas importantes naquele período.
Ainda assim, promover o movimento daquelas mulheres fazia com que eu também me movimentasse. Talvez, sem aquele compromisso, eu não tivesse conseguido.
Não foi a primeira vez
Quando digo que o Espaço Maya me salvou, não estou dizendo que uma aula cura uma dor ou resolve uma vida. Estou falando do que os encontros fazem comigo.
Em outro momento, vivi um aborto espontâneo. Foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. Fiquei profundamente entristecida e atravessei um período muito duro. Pouquíssimas pessoas sabiam o que estava acontecendo, e eu não interrompi as aulas.
Quando chegava ao Espaço Maya, conseguia sair daquele buraco por alguns minutos. Não porque a perda desaparecesse, nem porque trabalhar fosse um remédio. Ela continuava comigo. Mas, durante aqueles encontros, eu conseguia estar também em outro lugar: com outras pessoas, com o movimento e com a vida acontecendo ao redor da dor.
Foi quando entendi que a pandemia não havia sido uma exceção. O Espaço Maya já me salvou mais de uma vez.
O que me salva são os encontros
Eu poderia contar essa história como uma história sobre adaptação: uma professora perde sua sala, aprende a usar uma tela e transforma o trabalho presencial em online. Isso aconteceu, mas não é a parte mais importante.
A parte mais importante é que o cuidado nunca correu em uma única direção.
Eu criava as aulas, observava os corpos, propunha movimento e tentava construir um lugar seguro em meio ao medo. As alunas chegavam, ligavam suas câmeras, traziam suas casas, conversavam, riam e construíam aquele lugar comigo.
Eu oferecia uma brecha no dia delas. Elas ofereciam uma brecha no meu.
O que me salva na vida são os encontros e as relações que consigo estabelecer, manter e estruturar. São elas que me ajudam a continuar.
No fim das contas, o Espaço Maya é muitas coisas: trabalho, pesquisa, dança, treino e cuidado. Mas ele é, sobretudo, um lugar onde pessoas se encontram porque querem se cuidar e se movimentar.
Foi isso que continuamos fazendo quando o espaço físico fechou. E foi assim, mesmo através de uma tela pequena, que o Espaço Maya também me salvou.